
O desabafo de uma dentista que começou a trabalhar com delivery de comida para complementar a renda viralizou nas redes sociais surpreendendo usuários, que questionaram se o mercado da odontologia está saturado ou sucateado no país. “Ganhei o diploma, mas virei motoboy. Diploma não compra nada de riqueza”, reclama no vídeo Evelyn Gregio, que se formou em 2018 e, até hoje, só conseguiu trabalhos informais na área.
Gregio, de 28 anos, compartilha no TikTok sua rotina como “motogirl” na capital de São Paulo. Nos comentários dos vídeos, usuários perguntam detalhes do mercado de trabalho para dentistas. “Na minha cabeça, todo dentista ganhava bem”, escreveu um usuário em uma das publicações.
Os vídeos de Gregio foram compartilhados até mesmo em outras redes sociais e, no X (ex-Twitter), houve quem comentasse que “sempre foi um mercado saturado” e que “faz tempo” que a situação dos dentistas é difícil. “Conheço gente que está tentando a sorte com consultório na terceira cidade diferente em 15 anos. Concorrência brutal”, escreveu um seguidor.
Ao Valor, Gregio disse que começou a fazer pequenos trabalhos como entregadora no início deste mês, depois de passar por “calotes”. “Comecei a fazer entregas porque as clínicas odontológicas dão calotes em nós dentistas. Então, precisei entrar com outros meios de me manter”, diz.
Foi assim que as entregas viraram outra fonte de renda de Evelyn. Ela conta que o valor que ganha trabalhando como entregadora todas as noites, das 18h30 às 22h e aos domingos das 12h Às 22h, é de R$ 800 por semana, em média. No consultório, em clínicas populares, os atendimentos geram R$ 2 mil por mês, trabalhando cinco dias por semana.
Ou seja, nas condições atuais e sem levar em consideração gastos com gasolina, por exemplo, ela está ganhando mais como entregadora do que como dentista.
O mercado odontológico está em crise?
Para o vice-presidente da Associação Brasileira de Odontologia Celso Minervino Russo, não há uma crise no mercado, mas sim um grande número de profissionais se formando e se especializando, o que torna o ambiente cada vez mais competitivo.
“É claro que a quantidade de profissionais que são lançados no mercado todos os anos gera uma dificuldade [de conseguir emprego]. O mercado é regulado pela competência dos profissionais e pelo tempo de profissão, pela sua estabilidade profissional, o seu centro — onde ele trabalha e quantidade de dentistas que tem no local. São muitas variáveis que fazem com que um profissional tenha mais dificuldade do que o outro, ou um se sobressaia mais do que o outro”, diz Russo.
Todos os anos, entre 20 mil e 25 mil novos cirurgiões-dentistas se formam no país, apontam dados cedidos pelo Conselho Federal de Odontologia (CFO). Considerando os 415 mil profissionais inscritos na entidade, existe, no Brasil, aproximadamente um dentista para cada 508 habitantes no Brasil, diz o CFO.
Isso, segundo o conselho, “torna o mercado da odontologia dinâmico e desafiador”, mas não é exclusividade do setor odontológico.
“Este é um fenômeno que se repete em outras diversas profissões, não sendo exclusivo da odontologia. Isto faz do ambiente laboral um espaço altamente competitivo, e como resultado propicia realidades distintas para os mais diversos profissionais que estão no mercado”, diz em nota.
Em relação ao caso de Evelyn, o CFO informou que, por ser um caso individual, e sem o conhecimento sobre sua formação, experiências profissionais e outros fatores, não comentaria o caso.
Desde que se formou na faculdade, Evelyn sempre trabalhou informalmente: nem contratada sob o regime CLT, nem como prestadora de serviços (PJ). Desta forma, a dentista não tem direitos trabalhistas e se expõe a contratos informais.
Caso estivesse sob o regime CLT, seria aplicado o piso salarial para profissionais que atuam em São Paulo, de R$ 5.557,28 para jornada de 100 horas mensais ou 20 horas semanais, informa o Sindicato dos Odontologistas do Estado de São Paulo.
A remuneração inferior é permitida, desde que respeitando o salário proporcional ao número de horas trabalhadas.
